14 outubro 2010

#32 doença.crónica

agarrei no meu copo de gin, girei nos calcanhares e atravessei a sala atrás do gajo.
com uma boa dose de dificuldade na focagem, devo confessar.. mentalmente na minha cabeça girava uma música qualquer que eu ia acompanhando silenciosamente para me concentrar na tarefa.
mas quem se julga o gajo?.. a ultima palavra é.. -- boa, saltos espetados no tapete verde alface e um bocado de gin para cima do vestido -- minha, pois concerteza.
mas acho que na verdade só queria ir atrás dele porque ele era completamente fora de tudo o resto que alguma vez tinha conhecido.. só não o queria admitir (ainda).
os corredores da casa nunca me pareceram tão compridos.. e a fraca iluminação não ajudava nem à visão nem ao equilibrio. entrada na casa de banho.. onde fiquei parada a olhar-me ao espelho durante uns minutos.
pousei o copo. ou era da luz ou eu estava pálida. o lápis preto estava pro esborratado e decididamente o meu cabelo estava um susto.. um desalinho completo.
eu um bocado pro torta.. mas a tentar despertar.. a àgua fria ajudou. mão na maçaneta.. o que é que eu andava mesmo a fazer? ah já sei.. o gajo..
ele.
ele estava á minha frente no corredor quando abri a porta.
ele estava com um ar de gozo quando me viu a sair da casa de banho com um copo cheio de gin e o resto entornado no vestido.
ele estava encostado à parede com um braço apoiado numa rapariga.. enquanto lhe segredava qualquer coisa ao ouvido. um riso estridente foi a reacção enquanto que a dita lhe ajeitou a gola da camisa.
ele.
não sei se fora eu que o encontrara ou ele que simplesmente calhara encostar-se por ali.. não quis pensar.
fecho a porta e com a mão esquerda, agarro no copo com mais força do que seria necessário.. e sigo pelo corredor em sentido contrário sem querer avaliar os motivos que me levam a sentir a aceleração toda daquele momento.
ele mexia comigo.
mas uma vez que o dissesse em voz alta.. já a coisa não tinha volta atrás.
ainda que ele fosse um idiota. assim.. um supremo idiota. daqueles que não têm conteudo nenhum, dos que não sabem do que falam, não têm sensibilidade nenhuma e.. e não tivesse aquele olhar.
ele não era nem bonito nem feio.. tinha uma coisa qualquer que instantaneamente me deixara a pensar nele.
pfffff.. ainda que ele fosse um idiota!!
mas o pior é que não era.
talvez eu esteja a ser a idiota.. talvez..
a travessia pelo corredor esvaziara-me o copo. precisava era de mais.
o pessoal dançava ao som de uma música.. sorri e acenei ao x que estava todo contente agarrado a uma loirinha com ar de ser erásmica.
ao menos a noite não sai furada para os dois.. pensei. pouso o copo. encho-o e levo-o a passear até a uma das varandas. ergo-o outra vez. gin.
saco dum cigarro para me acompanhar.
ele surge. estás sozinha?
aparentemente sim.. vim com o x. ele está ali na sala se quiseres falar com ele.
humm.. agora acho que não é a melhor altura.. ri-se e estica o braço. espreito para a sala.. o x está embrulhado com a erásmica.
pois agora não.
curto este som!.. queres dançar?
não.
posso saber o porquê?..

não.
vá lá.. não sejas infantil.
como vês tenho um copo a terminar. dou um gole e levanto o copo de gin. olho-o friamente.

vai dançar com aquela tua amiga do corredor. remato.

1 comentário:

Anónimo disse...

Gosto!! Gosto disto e espero por mais! :-*